HISTÓRIAS DE

VACARIA-RS

Fotos de Vacaria-Rs

/esquerda p/direita

1-Praça Daltro Filho e Igreja N.S.Oliveiras; 2- A praça em dia de muita neve; 3-plantação de mirtilo; 4-Gaúchos e prendas em dança tradicional; 5—Rodeio Internacional de Vacaria; 6-Pinheiro da Araucária; 7 e 8 – Plantação de maçãs, a atual riqueza de Vacaria;9-Campos em dia de geada; 10- Estátua na entrada da cidade e 11-Fruto do pinheiro da Araucária.

VACARIA-RS

Cidade da serra gaúcha, situada no nordeste do estado do Rio Grande do Sul. Clima subtropical, com as estações bem definidas. No verão, muitos dias são quentes e, no inverno, faz frio, com geadas frequentes e neve às vezes.  É uma cidade moderna, onde predomina a colonização italiana. A sua população é de cerca de 60.000 habitantes.

Nos dias atuais, a sua grande riqueza constitui-se de frutas de clima temperado, sobressaindo-se a maçã, em pomares cultivados  com moderna tecnologia. Da variedade “Gala” há 4.500 hectares plantados, que produzem 170 mil toneladas/ano e da variedade “Fuji” há 2.100 ha, com produção de 70.000 toneladas/ano.

Vacaria-RS  contribui com 24% da produção nacional de maçã; e  sobressai-se também pela produção de frutas vermelhas – amora, framboesa, morango e mirtilo (blueberry).

Na safra 2011/2012, a produção de mirtilo atingiu 106 toneladas, provenientes de uma área plantada de 20,3 ha.

No passado, da agropecuária provinha a riqueza do município: gado criado em pastagens naturais e  plantação de trigo.

Quando ali vivi, na década de 1950,  havia grande quantidade de matas com pinheiro da araucária, contudo hoje bem reduzidas, face à atuação das madeireiras.

Naquele tempo, a rodovia federal, que fazia a ligação do Rio Grande do Sul com Santa Catarina, não era asfaltada, existindo atoleiros quase intransitáveis. De modo que os caminhões, no tempo chuvoso, dispunham de correntes adaptáveis às rodas, envolvendo os pneus, sem o que não era fácil vencer os lamaçais.

A estrada de ferro estava em construção, e faria a ligação entre  Bento Gonçalves-RS a Lages-SC,  passando por Vacaria.  O 3º Batalhão Rodoviário do Exército, cujo quartel situava-se na parte norte da cidade, onde hoje está o quartel da Brigada Militar, não só construía, mas também supervisionava as empreiteiras  em alguns trechos.   A vila militar  ficava nas adjacências do quartel, e ali residiam os oficiais, os subtenentes e sargentos em outra parte, e também nas proximidades os funcionários civis. Todas as casas eram de madeira, o que era bem comum em Vacaria, onde, excetuando a parte bem central da cidade, em volta da praça, a quase totalidade das demais era de madeira.

O batalhão  tinha três companhias que supervisionavam a construção,  a 1ª distava 5 km da cidade, no lado sudoeste, a 2ª também a sudoeste, a 40 km, nas margens do rio Teia, em direção a Bento Gonçalves,  e a 3ª Cia. para o lado norte do município, a cerca de 15 km da cidade, nas proximidades da Fazenda Socorro.

Essa Fazenda Socorro era o último pouso para  tropeiros  no passado, antes de 1935, quando não havia nem ponte e nem estrada para Santa Catarina.  Nela havia instalações adequadas e seguras para descanso dos tropeiros e do  gado bovino e muares,  antes da travessia do rio Pelotas, o que era feito pelas  partes mais rasas. Dali as tropas eram conduzidas até São Paulo, onde os muares eram bem valorizados, por serem animais mais resistentes, apropriados para carga na lavoura de café.

Vi o surgimento do rodeio de Vacaria, que com o passar do tempo tornou-se conhecido por Rodeio Crioulo Internacional de Vacaria, evento cultural e de esportes equestres, a maior festa tradicionalista do Rio Grande do Sul.

Em Vacaria,    nasceu Raymundo Faoro, advogado, jurista, escritor e membro da Academia Brasileira de Letras.

Na década de 50, naquela cidade, o entretenimento era escasso: nos domingos,  seriados nas  matinês nos cinemas Real e Guarani,  à tarde os jovens circulavam na Praça Daltro Filho e, à noite, filmes nos referidos cinemas.

Nos dias de semana à noite, as famílias se reuniam em torno do rádio, sintonizado na Rádio Nacional,  para se emocionarem com a novela “O DIREITO DE NASCER”, de Félix Caignet,  escritor cubano,  que contava a dramática história de Maria Helena que engravidou sem estar casada e o rebento, após o nascimento, foi entregue pelo avô, Dom Rafael de Juncal, à serviçal  Mamãe Dolores com ordem para matá-lo. Mamãe Dolores fugiu e criou-o como filho, vindo a ser o Dr. Luís Alberto Limonta.  Uma história comovente que se estendeu por  quase 300 capítulos.

Além disso,  ninguém perdia o programa “ EDIFÍCIO BALANÇA MAS NÃO CAI”,  em que, entre outros,  havia o quadro humorístico “PRIMO RICO E PRIMO POBRE”, interpretados respectivamente por Paulo Gracindo e Brandão Filho;   e “FERNANDINHO E OFÉLIA”, um casal interpretado por  Lúcio Mauro e Sônia Mamede,  em que a Ofélia sobressaia-se pela burrice.

Nessas poucas linhas, descrevi a cidade onde passei parte de minha infância e juventude, a Vacaria “Porteira do Rio Grande”, da qual são muitas as ternas lembranças: os banhos nos riachos e nas cachoeiras,  os acampamentos de escoteiros no meio da mata e à margem dos regatos,  os churrascos da gurizada sob os pinheirais,  as pescarias de lambaris e jundiás, a colheita de pinhão  e frutas silvestres etc.

Nesse texto, falo da Vacaria atual, moderna e progressista,  e  também lembro da cidade do meu passado; e sua leitura será agradável para os meus contemporâneos, hoje espalhados por esse mundão de meu Deus, nos quais também serão evocadas, com certeza,   ternas lembranças.

DANILO ORRICO DOS SANTOS – Anápolis-GO,  02.04.2016

 

CASAL ARROGANTE

  

Em 1957, nós residíamos na Vila Militar, nas adjacências do quartel do 3° Batalhão Rodoviário, em Vacaria – RS. Na vila havia um setor dos oficiais, outro dos subtenentes e sargentos, e outro dos funcionários civis do batalhão.

Todos se abasteciam na cantina do batalhão, uma espécie de supermercado. Não existiam supermercados na cidade, apenas armazéns que atendiam a clientela, anotando as compras em cadernetas.

Comandava o batalhão um coronel. O subcomandante era um tenente-coronel. Moravam na vila, nas melhores casas, todas de madeira. O comandante era reconhecido como um homem cordato, respeitável, que exercia seu comando com autoridade natural, sendo respeitado e até amado por todos subordinados.

Ao contrário, o subcomandante se esforçava para se mostrar pernóstico, intratável, enfim uma besta quadrada. Nas oficinas do quartel, era um terror; a sua presença impunha medo, pois tudo o levava a aplicar descompostura num e noutro. Quando levava o seu carro para consertar ou lavar, exigia o máximo esmero. Brigava pelos mínimos detalhes. Se o tal era o chato-mor, a mulher não ficava atrás. Sempre afetada, o seu semblante transparecia uma permanente repugnância pela plebe rude. Diziam alguns que a dita, por ter o nariz empinado, com certeza, antes de sair, esfregava um pouco de fezes sob as narinas. Quando via as senhoras dos civis ou dos sargentos,  comprando bolachas avulsas na cantina, apontava para o balcão e dizia.

– Moço, essas bolachas são próprias pra gente ou cachorros?

Era uma figura digna de toda ira possível, de modo que todos, sem exceção, pensavam em torcer seu pescoço.

Certa noite de inverno, foi ao Cine Guarani com seu esposo. Estacionaram o carro na rua ao lado e, rapidamente, entraram no cinema, refugiando-se do frio insuportável da serra gaúcha.

No final da sessão, correram em passos apressados para o carro. Quando os dois sentaram, sentiram sob si uma massa molhada e catinguenta. Um fedor terrível enchia o automóvel. Até a luva de couro do tenente-coronel escorregou no volante imundo.

Mesmo assim, sujos e fedidos, seguiram até a Vila Militar.

No dia seguinte, os operários das oficinas espantaram-se com a imundície e fedor: era merda pra todo lado! Um dos muitos desafetos do oficial coletou excrementos de uma fossa rústica e espalhou fartamente em todo interior do carro.

O Tonhão da oficina deduziu:

– Com certeza, isso é obra de alguém que levou uma mijada e, por vingança, deu-lhes uma brutal cagada!

 

“Ser humilde com os superiores é uma obrigação, com os colegas é uma cortesia, com os inferiores é uma nobreza”  (Benjamin Franklin)

 

PERTURBANDO A ATUAÇÃO NO “MOITEL”

Em Vacaria, na serra gaúcha, no inverno, o frio era difícil de suportar; a geada, frequentemente, nas manhãs frias, embranquecia as pastagens e as árvores. Não era tão comum, mas também nevava.

No verão, contudo, havia dias bem quentes; então, para se refrescarem, os  meninos da vila militar se dirigiam até um riacho distante da cidade uns 7 km. As águas eram límpidas, tanto que ali se localizava uma  represa de captação, que atendia o consumo da cidade.

Para se chegar ao local, seguíamos por uma estrada de terra, atravessávamos uma  mata, e continuávamos pedalando, subindo e descendo coxilhas.

Quando chegávamos ao rio, cansados e suados, valia pena: era muito agradável mergulhar em suas águas.

No decorrer da tarde, nadávamos, mergulhávamos, competíamos etc.

Lá pelas 6 horas, quando a fome chegava, a molecada – 10 a 12 adolescentes – regressava.

Num desses dias, na volta, do alto da coxilha,  numa curva de uma estrada abandonada, no meio da mata, notamos  uma caminhonete estacionada.

Chegando à mata, parte dos meninos resolveu averiguar. Seguimos pela estrada e, lá na frente, numa das curvas, estava a caminhonete. Passamos rente, olhando pra dentro.  Uma moça, alarmada e surpresa, rapidamente cobriu os seios. Paramos bem adiante, após uma das curvas da estrada.

Ficamos atentos e ouvimos o barulho da caminhonete, saindo velozmente. Minutos depois, voltamos ao início da estrada e contamos o ocorrido.

_ Pra que lado eles foram?

_ Por aqui não passaram!

Se não passaram por eles, nem os vimos no caminho, só podiam ter se escondido no meio da mata. A turma se infiltrou no mato, procurando pelo casal. Alguns conseguiram avistar a caminhonete.

_ Só vejo a caminhonete, mas não estão dentro!

_ Do lado de cá também não estão!

_ Falem baixo!

_ Psss! Psss! Psss!

      _ Calem a boca, seus merdas!

Zoadeira geral. Os namorados entraram na caminhonete e saíram em alta velocidade, esmagando o matagal.

Voltamos ao início da estrada, e os que ali ficaram disseram:

_ Passaram correndo, seguiram  pela estrada rumo ao norte e dobraram naquele morro, lá adiante!

_ O que faremos agora?

_ Vamos desistir?

Todos concordaram que a caçada deveria continuar. Os  meninos montaram nas bicicletas e correram pela estrada, parando uns 800 metros depois, quando depararam com a caminhonete estacionada após a curva.

As bicicletas foram deixadas no meio do capinzal, e os meninos subiram até a parte mais alta do morro, procurando um melhor lugar para observar. Lá de cima, olhando do meio do capinzal, localizamos o casal, que estava numa sombra, distante de nós uns 70 m.

Novamente começou o vozerio:

_ Lá estão eles!

_ Falem baixo!

_ Cale a boca!

Vimos, então, que o homem percebeu nossa presença. Levantou-se e calmamente dirigiu-se à caminhonete. Lá no alto, o pensamento foi um só: o tempo vai esquentar!

Num só momento, iniciamos a descida da ladeira em desabalada carreira. Segundos depois, ouvimos disparos e mais disparos. Com as balas zunindo sobre nossas cabeças, corríamos desesperados. Em meio à disparada, olhei para o lado e constatei que disputava a dianteira com o Humberto, o mais completo atleta do colégio.

 

Moral da história: 1) – Quem procura acha!

2) _ Um homem motivado supera seus limites.

​© 2018 

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Vinde a min vós que estais cansados
e oprimidos e eu vos aliviarei.
Mateus 11:28

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