HISTÓRIAS DE

ILHÉUS-BA

Fotos de Ilhéus-Ba
/esquerda p/direita

1-Vista aérea de Ilhéus-Ba; 2-Baía com parte do bairro Pontal ao fundo; 3-Resort Tororomba;  4-Resort Cana Brava;  5-Morro do Pernambuco ao fundo; 6-Vista da igreja São Sebastião, praia em frente a Ilhéus e bairro Pontal ao fundo; 7-Balneário municipal Tororomba; 8- Foz do rio Cururupe; 9-Prefeitura municipal de Ilhéus; 10-repetida; 11-Vila de Olivença em Ilhéus.

TROCA DE POSIÇÃO

Há muitas décadas, quando residi em Ilhéus, no bairro do Pontal, tomei conhecimento de um estranho drama familiar meio tragicômico. O Seu Valinhos, de 40 anos, funcionário público, era casado com D.Amélia, de 35,  dona de casa  prendada.  Viviam relativamente bem, numa casa ampla, com seus três filhos, estando o maior já cursando o primário. Apaixonados um pelo outro. A Amélia defendia a união, diante da aproximação de qualquer sirigaita, escandalosamente, no maior estardalhaço, causando receios em possíveis pretendentes.  Dizia: “ O Valinhos é meu! Ninguém chega perto! Não consigo viver sem esse homem, sou tarada por ele e capaz de fazer loucuras, se alguma vadia se aproximar!”.

O cuidado com os filhos, a limpeza da casa e  os trabalhos em geral   levaram-na  a descuidar-se um pouco da  aparência. Apesar de ainda bela, isso não aparecia, face às roupas muito simples e a cabeça sempre com um grande turbante, que escondia os muitos “bobs”.

Enquanto isso, o Valinhos, que já vivia a sua fase de fastio matrimonial, tinha seu olhar atraído por mulheres bonitas que cruzavam seu caminho.

Na lancha, na volta do trabalho, examinava as moças com muito interesse, mas sem causar constrangimentos, pois era um homem casado. Ao ver a Mariazinha, ginasiana, que recentemente perdera o pai, pôs-se a pensar:  “Essa mocinha é bem bonita! Lábios sensuais, cabelos longos, olhos expressivos e corpo escultural – sem dúvida alguma, é uma linda mulher! Com um bom banho de loja, fecharia o comércio!”.

Aquele olhar não passou despercebido: a menina sentiu-se analisada de alto a baixo. Desviou o olhar, mas se alegrou internamente, pois tinha atraído a atenção do Sr. Valinhos, de meia idade, mas ainda muito atraente.

Nos dias seguintes, o Valinhos pagou sua passagem, o que ajudou a aliviar  seu orçamento, bem curto desde a morte do pai. Passou a acompanhá-la no caminho para sua casa até o ponto em que os seus trajetos coincidiam. Homem agradável, gentil, de conversa interessante e envolvente. Quando despertou para a realidade, já estava, debaixo da mangueira, no escuro, abraçada com o Valinhos, trocando carícias e beijos apaixonados.

Quando a Amélia soube do fato, começou a caçá-la, prometendo fazer o maior escândalo: “O Valinhos é meu, e vagabunda nenhuma vai roubá-lo!”.

Surpreendeu-os num fim de tarde e fez a maior confusão. Deu uns bofetadas e empurrões na menina, mas foi segurada, senão a pancadaria teria continuado. Sabe-se lá qual seria o desfecho. Às carreiras, a menina fugiu desesperada. A briga continuou em casa. Ouviam-se os gritos: ”Cachorro, canalha! Não tem ver vergonha de seduzir uma menina com a idade de ser  sua filha! Saia desta casa, antes que eu te mate! Estou com nojo da sua cara!”.

O Valinhos, então, ajuntou suas coisas e foi para uma pensão, onde esperaria a fúria passar.

Nesse ínterim, encontrou-se com a menina depois da escola. Visivelmente preocupada, contou que a sua situação ficou complicadíssima, pois apanhara da mãe, e o que era muito pior: estava grávida.

O Valinhos passou pensativo vários dias: “Em que merda eu  me meti! A menina ainda menor – a promotoria vai me encanar! Estou lascado!”.

Apresentou seu plano à mulher amada: ”Vamos casar! Com o consentimento de sua mãe, o casamento pode realizar-se,  considerando que legalmente eu sou solteiro – casado só no padre!”.

Quando a mãe ficou sabendo, aceitou de pronto: assim se livraria da vergonha de ter uma filha buchuda, solteira, sem amparo algum.

Quando a  Amélia soube de tudo, o casamento já tinha se realizado. O jeito era lamentar-se, o que fazia sempre: “Como fui burra!  Expulsei de casa o homem de minha vida! Eu sou uma idiota!”

Os meses se passaram. Os dias de paixão abrasadora findaram. O casamento entrou numa mesmice.

Por outro lado, a Amélia, por ter perdido seu grande amor, passou a cuidar-se mais. Frequentava o salão de beleza: fazia limpeza de pele, aparava os cabelos, pintava as unha das mãos e pés.  Uma nova mulher surgiu.

O Valinhos, de longe, notou as diferenças: “ Como está  linda, sensual, cativante!”.

Nunca deixara faltar nem roupas nem alimentos para os filhos: o dinheiro da mesada era sagrado. Sentiu que devia aproximar-se dos filhos e foi até eles.  Foi recebido com alegria pela meninada e, com reservas,  pela Amélia.

A jovem esposa não gostou, quando soube da visita. Ele falou com veemência: ”Jamais  abandonarei  meus filhos, sangue do meu sangue! Na idade em que estão, precisam da figura paterna ou terão problemas psicológicos!”.

Como estava vivendo um tempo novo: casa confortável, comida farta, roupas novas; conformou-se com a situação. Ficou acertado que o Valinhos dedicaria aos filhos um dia por semana.

Nas visitas, o Valinhos conversava com os meninos, mas não tirava os olhos da Amélia. Pensava: “Como está linda! Que corpo! Que pele! Que saudades das suas carícias, dos seus gemidos de amor, da sua entrega!  Valinhos, como você foi insensato!”.

Os seus olhares foram captados pela Amélia: “ Como amo esse homem! Não vou ceder facilmente. Sem explicação, largou-me por uma menina! Gosto desse peste, mas não vem que não tem!”.

Quando o Valinhos disse que o casamento foi motivado pelo medo de ser enquadrado por sedução a uma menor, a Amélia entendeu e aceitou-o nos seus braços.

Causou espanto, quando, meses depois, apareceu buchuda. Dizia às amigas: “O pai é o Valinhos! Vocês  sabem que eu amo aquele safado!”.

Assim, a “outra” tornou-se esposa, e a esposa, a “outra”. Viveram felizes para sempre?

 

O CHEFE

 

Quando cursava o ginasial no IME – Instituto Municipal de Educação, em Ilhéus-Ba, o Rolando, meu colega, jogava conversa sobre uma menina que o escutava atentamente.

Indagado sobre sua atividade, informou:

– Sou chefe do setor de autenticação da Receita Estadual!

Ao ouvir aquilo, vieram-me pensamentos sobre os estranhos desígnios da existência humana.  Os dotados de sorte atingem logo no início da vida altas posições. Outros amargam um viver sofrido e, quando conseguem prosperar, tudo é fruto de um trabalho árduo. Outros nunca tiram o pé do atoleiro. Sobreveio-me uma conclusão: “ O Rolando deve ter um QI (quem indica) alto, de muita influência!”.

Certo dia, entrei no  prédio da  Receita Estadual. Passando por um corredor, olhei para dentro de uma saleta, quase um cubículo, e, lá no fundo, sentado diante de uma mesinha, cercado por centenas de blocos, carimbo em punho, com uma rapidez impressionante, o Rolando autenticava notas fiscais. Era chefe dele mesmo!

|Naquele momento despertei. Eu, na realidade, era o Chefe dos Serviços Externos da Organização Contábil Bonifácio e, até aquele momento, não sabia: via-me apenas como um simples office-boy.

 

SÁBIA DECISÃO                               

Luci vinha pensando há tempos em abandonar os estudos. Entendia que era perda de tempo. Horas e horas com a cara nos livros.  Tudo muito cansativo e enfadonho! Deveres de casa, decorar textos, trabalhos por fazer, provas e mais provas. O professor de matemática, então, como era maçante! Ensinava equações do 1º grau, do 2º grau, etc. Era “x” pra cá e “y” pra lá! Ela não conseguia ver onde poderia aplicar tais conhecimentos. Uma chatice!!! Um tempo precioso perdido, quando poderia deleitar-se nas belas praias de Ilhéus!

A mãe iria ficar muito aborrecida, mas com o passar do tempo entenderia.

Tinha de entender!

No dia seguinte, no horário de ir pra escola, falou:

– Mãe, eu decidi parar de estudar! Não vou mais à escola! Eu quero é ficar em casa e não vou precisar de nada do que ensinam!

A resolução da menina e a firme entonação da voz paralisaram a mãe tal como um cruzado do Mike Tyson. Ficou impactada, sem ação por uns momentos. O primeiro pensamento foi mandá-la pra escola na marra. Porém avaliou que a menina estava na adolescência, fase difícil, que requeria muito cuidado. Uma reação inflexível, arbitrária e precipitada poderia gerar trauma e revolta.

Depois de um longo silêncio:

– Filha, você sabe que sempre acreditei muito no seu potencial. Face à  sua inteligência e vivacidade, sonhava em vê-la formada, depois cursando um mestrado e, talvez, até um doutorado. Porém, já que tomou essa decisão, vou respeitar. Mesmo sabendo ser uma decisão insensata, não vou brigar! Hoje posso ampará-la, mas no futuro, quando eu morrer, como será? Por isso devo prepará-la para o amanhã, ensinando o básico, para que possa ganhar a vida, pelo menos como diarista. A começar de hoje, vou lhe dar  tarefas caseiras, como parte do treinamento. Portanto, troque os lençóis das camas, lave-os na máquina, estenda-os para secar. Depois, varra a casa e o quintal, ensaque a sujeira e coloque os sacos na calçada, que o caminhão do lixo passa às 10 horas.

Na terça-feira, no horário costumeiro:

– Luci acorde! As tarefas de hoje são as seguintes: estenda os lençóis das camas, varra a casa, regue as plantas, ligue o aspirador e limpe os tapetes e as paredes das teias de aranha. Depois cozinhe apenas o arroz e o feijão. Quando voltar às 11 horas, prepararei os demais pratos.

Na quarta-feira:

– Menina acorde! Já são 7 horas! Hoje faça o seguinte: arrume os quartos, varra a casa, limpe os banheiros com desinfetante, lave os vitrais da casa com cuidado, passe a ferro a roupa lavada. Cozinhe arroz e feijão, moderando no sal, pois, ontem, ficou salgado. Não se esqueça de regar as plantas e de colocar o lixo na lixeira da calçada.

Na quinta-feira:

– O relógio já assinalou 7 horas, acorde menina!! Além  das limpezas de todo dia, dê polimento nas panelas com palha de aço. Desentupa a pia da cozinha. É simples, basta desenroscar o sifão e limpá-lo cuidadosamente, retirando a gordura e outros fragmentos. Não se esqueça de regar as plantas, pois o clima está muito seco.

E assim aconteceu nos dias seguintes da semana.

No final da semana, a menina já tinha concluído que havia entrado pelo cano: fizera uma péssima escolha.

Na segunda-feira:

– Mãe, eu pensei muito, muito mesmo, e concluí que devo voltar para escola!

– Excelente decisão, filha! Muito sábia!

 

ZÉ BACALHAU

     Na década de 60, entre os tipos interessantes do Pontal, bairro de Ilhéus,sobressaía-se o Zé Bacalhau. Era filho do Sr. Maia, uma das mais proeminentes pessoas da localidade. Enquanto o pai primava por ser um respeitável cidadão, de postura inatacável, o Zé Bacalhau, seu filho, com mais de 20 anos, cresceu em tamanho – era grandão, mas não tinha amadurecido em igual proporção,

Na praça central do Pontal, antes do prefeito Henrique Silva reformá-la, havia um terreno arenoso em frente à capela, onde os jovens jogavam “baba” – pelada em baianês.  Numa disputa acirrada, o Zé Bacalhau e o Epitácio trocaram patadas, e a briga só não redundou em algo mais feio porque a turma-do-deixa-disso separou os brigões. Ficaram se insultando  de longe, enraivecidos.

Naquela troca de xingamentos, o Zé Bacalhau gritou bem alto: “Você não tem moral comigo! Você pegou no meu pau!”.

Aquela palavra atordoou o Epitácio; ficou sem ação.

Dias antes, o Zé Bacalhau esteve no posto de saúde para uma pequena intervenção cirúrgica na região inguinal.  Atendendo ordem do médico, o Epitácio, que era enfermeiro, muito constrangido, por dever de ofício, foi levado a fazer uma raspagem na região pubiana e para isso, com a mão enluvada, teve de afastar o pinto do sacana.

Foi um bom tempo que se foi, mas deixou hilariantes lembranças.

 

RECORDAÇÕES DO PONTAL DE ILHÉUS

 

Ao saber das possibilidades do programa Google Street View, resolvi primeiramente, regurgitando lembranças do passado, dar um passeio imaginário  pelo Pontal de 1960, suas ruas e becos de areias escaldantes, a praia do Sul e seus coqueirais, o morro do Pernambuco e sua prainha e seus rochedos onde, tantas vezes, há mais de 50 anos, quedei-me sentado, absorto, ora atento às ondas borbulhantes que se chocavam nos rochedos,  ora a pensar na vida: “O que eu teria pela frente?”.

Como estaria a colônia de pescadores, onde, sob os coqueiros, com cascas de manguezal, ricas em tanino, curtiam suas redes e depois as estendiam para secar?

Então me veio à lembrança uma ocorrência interessante: quando, na escuridão da noite, ao surpreenderem casais atracados  sob as redes de pesca, o pescadores faziam o maior escândalo e prometiam uma surra caso fossem apanhados novamente.

As ameaças não surtiram muito efeito, pois ao amanhecer, encontravam redes com rasgões, demandando perda de material e tempo para consertá-las.

Por falta de motéis, o local era propício para encontros amorosos: a escuridão da noite, a rede vermelha por cima e a grama verde por baixo.

Os pescadores, cansados de tanto trabalho e prejuízos, anunciaram que iriam aplicar uma surra  naqueles que fossem apanhados fornicando sob as redes: iam descer a vara com vontade!

Numa noite de lua nova, o Fenelão, amigo dos pescadores, resolveu arriscar e foi surpreendido. As varadas cantaram no lombo do garanhão. Enquanto recebia as lapadas, gritava: “Parem, sou eu, amigo de vocês, o Fenelão!”. Aí as varadas ficaram mais fortes: “Sujeitinho mentiroso! Passando-se pelo Fenelão! O verdadeiro Fenelão bem sabe de nossa proibição!”.

Voltando ao meu passeio imaginário, revi a banca de peixe, a praia da frente com suas mangueiras e águas tépidas; então dobrei na rua Cel. Pessoa, onde, logo no início, estava a sorveteria do Favila – até senti o gosto do picolé de coalhada, que custava apenas Cr$ 0,20.

A propósito, contavam que o Penteado, um pitoresco morador do bairro, sempre ali comprava picolés, chupava-os e, no acerto de contas, apresentava uma nota de Cr$ 20,00. O Favila, como não tinha troco, anotava e pendurava a conta. Vezes seguidas, o Penteado assim agiu. Aos amigos dizia que era sua nota de forçar fiado. O Favila, com a paciência já no limite,  engolia a raiva e pendurava a conta.

Numa tarde, depois de consumir um picolé, o Penteado pagou com sua já famosa nota de CR$ 20,00, e o Favila pegou-a, recolheu todas as notas penduradas e devolveu o troco ao espertalhão numa sacola  com Cr$ 19,20 em moedas de dez e vinte centavos. O Favila deu-lhe o merecido troco.

Também nessa rua Cel. Pessoa localizava-se o Clube Social do Pontal, o único centro de reunião festivas do bairro.

Nesse clube, a diretoria organizou uma festa para homenagear um capitão da polícia, antigo morador do Pontal, que havia aposentado. Houve comes e bebes e, depois, uma festa dançante.

No início de tudo, solenemente, o presidente do clube falou que o principal motivo do congraçamento era homenagear o capitão, antigo sócio do clube, cidadão respeitável, querido por todos, que estava iniciando um período de merecida aposentadoria, depois de trinta anos de honrosos serviços à comunidade.

Após os aplausos, passou o microfone ao capitão para dizer algumas palavras.  De posse do microfone, já meio grogue de tanto álcool, pôs-se a discursar cambaleante, com os olhos mortiços, tartamudeando, de modo que, trinta minutos depois, ninguém  estava aguentando a sua lenga-lenga. Quando fazia  pausas e todos pensavam que o palavrório findara, o homenageado reiniciava a sua discurseira enfadonha.

A diretoria se reuniu para buscar uma solução que não ofendesse o orador. Então, numa pausa, surpreendeu-se com acaloradas palmas, abraços e vivas Nem teve tempo de pensar, e o microfone foi tirado de suas mãos enquanto era abraçado calorosamente.

Após esse passeio em minhas lembranças daquele bom tempo, acessei o Google View e percorri atentamente todas as ruas, vielas e lugares, e constatei que, infelizmente, o Pontal do meu passado, ora com casas e edifícios modernos, está tão diferente! A praia da frente, onde as barcas de passageiros aportavam, antes tão movimentada,  foi praticamente eliminada pela construção da moderna avenida Lomanto Junior.  Onde existia o campo de futebol no sopé do morro de Pernambuco, fizeram praça, escola e muitas casas.

O meu bucólico Pontal – onde havia tanta simplicidade, ruas de areias quentes, a brisa fresca soprando mar, o cheiro do vento terral à tarde, o som dos alto-falantes, a molecada jogando ”baba” com suas bolas de barbante, os cajueiros e as frondosas mangueiras da Sapetinga – só existe em minhas lembranças.

Em tristeza, constatei, mais uma vez, que a vida passa celeremente, e o jovem que eu era transformou-se em um homem encanecido a recordar  saudosamente um bairro pacato, quase uma vila isolada, de um passado remoto.

​© 2018 

daniloorrico.com

 

Vinde a min vós que estais cansados
e oprimidos e eu vos aliviarei.
Mateus 11:28

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