HISTÓRIAS DE

SANTARÉM-PA

Fotos de Santarém-Pa
/esquerda p/direita

1-Vista aérea; 2-Encontro das águas –parte da cidade, rio Tapajós e rio Amazonas,com águas barrentas; 3-Shopping Center; 4-Barcos aportados em frente à cidade; 5-Praia em Alter do Chão; 6- Parte central e antiga;  7- Hotel Barrudada; 8- Praia com Vila de Alter do Chão ao fundo; 9-Praia Maria José; 10- Praia em Alter do Chão; 11- Idem.

ARMANDINHO, O GOZADOR

Carlos, funcionário do Banco Brasil de Santarém,  casara-se recentemente. Estavam ainda em lua de mel,  conhecendo-se, em fase de cuidadoso ajustamento. Ele era natural de Santarém, e ela, Dona Miti, descendente de japoneses. Ocorriam descobertas diárias das peculiaridades de cada um, pois provinham de duas culturas diferentes.

Numa manhã, antes do início do expediente do banco, o Carlos adquiriu uma enfiada de tucunarés e pediu ao Armandinho, contínuo do banco, que levasse até sua casa, distante dois quarteirões.

– Por favor, peça para a Miti preparar a peixada ao molho escabeche!

O Armando, lá chegando, transmitiu a recomendação do Carlos.

– Molho escabeche!? Como é isso?

O Armandinho, amigão, informou como era o preparo:

– A senhora limpa os peixes normalmente. Corte em postas e frite. Cozinhe um feijão com caldo grosso, bem temperado. Depois coloque o peixe no feijão e deixe esquentar uns 5 minutos.

– No feijon?! Que estranho?!

Na parte da tarde, depois do almoço, o Carlos estava em sua mesa, calado, absorto em seus pensamentos!

Aproximou-se o Armandinho:

– Que tal, Carlos, o almoço estava gostoso? A D.Miti não sabia preparar e eu lhe dei toda orientação.

– Cara, como você é sacana!!!

 

A PRAÇA DOS TRÊS PATETAS 

No início da década de 70, quando a gloriosa revolução de 64 sentiu que, para convalidar o arremedo de democracia então existente, deveria mudar as regras do jogo, pois a surra política era iminente. Criaram então zonas de segurança nacional – as capitais e cidades de maior porte. Seus prefeitos seriam nomeados pelo Presidente da República.

Santarém já era uma grande cidade, localizada no encontro dos rios Amazonas e Tapajós, e sua influência comercial abrangia todo Baixo Amazonas.

Foi nomeado prefeito o Capitão Elmano, excelente administrador, tido como diligente e criterioso. Imprimiu um novo ritmo na prefeitura, abrindo ruas, criando praças, enfim trazendo melhoramentos diversos. Desejando prestigiar os artistas/escultores locais, contratou a elaboração de estátuas para as praças do seu plano de urbanização. Assim, para a Praça de São Pedro, localizada em frente ao encontro das águas, o artista esculpiu um homem de vestes longas, que dizia ser Pedro, o pescador. Para a Praça da Abolição, próxima ao Hotel Tropical, esculpiu um negro seminu, com uma peça de roupas cobrindo-lhe parcialmente os glúteos.  Para homenagear as forças armadas o artista esculpiu três soldados que ornariam a praça existente perto da prefeitura, na saída para o Bairro Mararu: um da marinha, outro do exército e outro da aeronáutica.

Por infelicidade – ou pura sacanagem! – eles não tinham a postura aprumada e varonil  que melhor representaria um soldado. Ficaram com poses esquisitas, parecendo mais três jovens dançando rock.

A primeira foi apelidada de Praça do Homem do Camisolão, outra de Praça do Negão (ou Homem) Pelado, e a última, que seria urna homenagem às forças revolucionárias de 64, Praça dos Três Patetas. Os apelidos das duas primeiras praças não colaram. Já a última não era conhecida por outro nome, o que fazia o prefeito avermelhar de raiva.

Considerando que o prefeito pretendia trazer melhoramentos para a cidade, embelezando-a,  estabelecendo assim marcos para lembrar sua administração, estudava com prazer propostas que lhe eram apresentadas.

Nesse embalo, o presidente da AABB requereu, para a construção da nova sede da AABB, a doação de urna área da prefeitura, situada na zona leste da cidade, banhada pelo Rio Amazonas.

O prefeito disse que concederia o lote com o maior prazer. Entraram no carro da prefeitura e o Darivaldo foi orientando o motorista:

– Siga até o final da praça da prefeitura, vire à esquerda, siga até a Praça dos Três Patetas e …

O Prefeito então saiu do sério, não contendo a raiva:

– Que três patetas!!! Nada disso, são os que estão mandando no Brasil!

A partir daí tomou-se visível a sua irritação.

E assim, por uma vacilação momentânea, a AABB ficou sem o pretendido lote.

 

Nota – Nos dias atuais, a praça encontra-se remodelada, sem os estranhos soldados apatetados, mas continua a ser conhecida como “PRAÇA DOS TRÊS PATETAS”.

LUSITANO DE DENTES FORTES

Lá em Santarém, no início da década de 70, morava um português, de nome Joaquim. Tornou-se conhecido por ser dinâmico, trabalhador, movimentando sua padaria muito bem, em ótimo ponto. Ficou rico.

Contavam que sua  arcada dentária era  muito forte; os seus dentes, sadios e perfeitos.

Disso tinha o maior orgulho!

Numa ocasião, quando um fusível do quadro de eletricidade queimou, tentaram, por todos os meios, desatarraxá-lo e não conseguiram.

O português então pensou: “Os dentes são de porcelana, mesmo material do  fusível, logo não há descarga elétrica”.

Após essa conclusão, ajoelhou-se, prendeu fortemente o fusível com os dentes, e girou a cabeça.

Depois de um esforço, o fusível afrouxou, mas a baba escorreu e provocou um curto circuito, que o deixou desacordado por uns momentos.

Fiquei sabendo dessa história numa roda de cerveja, no Bar Mascote. Do jeito que chegou a mim, chuto-a pra frente, sem aumentar um só detalhe.

 

EU JÁ FUI GURU!

Em Santarém, por ocasião das atividades promovidas pelo Inspetor Sotero, que lá fora apurar a herança maldita deixada pelo antigo gerente, naquela ocasião já no exercício de nova gerência em Belém, o mesmo usou e abusou de suas prerrogativas, pondo à mostra todo seu lado sádico.

Azucrinava a vida de todos, num sadismo sem medida, deliciando-se em pisotear uns e outros. Fora investigar alguns e maldosamente colocava todos no mesmo nível. Diariamente, ao chegar, gritava bem alto para que todos ouvissem: “Atenção pessoal! Se alguém ainda não recebeu uma carta-convite para explicações no meu gabinete, não se sinta desprestigiado, pois logo chegará sua vez!”.

O gerente – não se sabe o real motivo! – resolveu construir as instalações da AABB sem esperar os recursos normalmente enviados pela Direção Geral do banco, conforme critérios técnicos, após cada balanço.

Atropelando as normas, financiou  juta e malva aos agricultores ribeirinhos do Rio Amazonas,  acrescentando ao crédito pretendido mais um pouco, que era repassado para a AABB.

O problema nunca vinha à tona, pois o chefe da carteira agrícola era o presidente da AABB, e o fiscal encarregado de apurar irregularidades, diretor social.

Como novo subgerente eu percebi alguma coisa errada, porém não havia fortes  evidências, de modo que deixei as apurações para a próxima inspeção, sendo desaconselhável qualquer apuração imediata, pois o gerente desfrutava de prestígio com políticos de expressão nacional. Caso levantasse o problema de imediato, teria contra mim, não só os diretores da AABB,  outros funcionários e o gerente. Adviria consequentemente  uma situação pra mim insuportável.

Contudo, na inspeção do Sr. Sócrates, a irregularidade não estourou. Antes do final da inspeção,  foi por mim avisado de que logo surgiria um problemão, face ao vencimento dos financiamentos irregulares supracitados.

Nesse contexto, considerando que o inspetor Sócrates pediu outra inspeção exclusiva para o caso, o  inspetor Sotero foi enviado para investigar. Para mostrar serviço e talvez prolongar o tempo da inspeção, pois a cidade era agradável e as diárias polpudas,  além tentar bem esclarecer as falhas já denunciadas, buscou, com desmedido estardalhaço, chifres em cabeça de cavalo. Assim, esforçou-se para mostrar serviço; e perturbava todo mundo, criando um clima de instabilidade emocional generalizado. O Dr. Benedeti ajudou a matar  parte da charada do Sotero, pois o ouviu dizer no telefone para a esposa: “ Fique calma, confie em Deus! Leia o salmo 91 e o 17”. Tudo indicava que o cara e sua família estavam sob forte tensão, o que o motivava a agir da maneira mais estulta possível,  descarregando  sarcasticamente a raiva sobre inocentes.

Certa manhã de segunda-feira, antes da abertura do expediente, o Mario Rigoni chegou visivelmente transtornado, cabelos em desalinho, barba por fazer, olhar obcecado, e foi logo dizendo:

_ Danilo, hoje eu vou matar aquele filho da puta!

Com muita conversa consegui convencê-lo a me entregar o revólver que trazia sob a camisa, pois o seu ato insano só geraria um problema ainda maior  para nós , que não tínhamos qualquer responsabilidade  com os mal feitos do gerente, que já seguira definitivamente  para Belém.

Passados os efeitos da ressaca, viu a inominável besteira que quase cometeu e passou a me chamar de “meu guru”.

Apesar de ter-me causado muitos dissabores, até hoje não me arrependo de ter livrado o couro do Sotero.  O Senhor, com certeza, aplicou-lhe a necessária disciplina no decorrer de sua vida: o que plantou de algum modo colheu!  Se ainda não passou por um grande tormento, melhor seria que  passasse – não declaro isso por  vingança  mesquinha  – mas porque,  nos momentos de dor, maior é a possibilidade de o homem encontrar-se com Deus e, quebrantado, pedir e obter perdão.

O salmista rei Davi, no salmo 119:67, declarou: “Antes de ser afligido, eu me desviava, mas agora guardo a tua palavra”.

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Vinde a min vós que estais cansados
e oprimidos e eu vos aliviarei.
Mateus 11:28

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