HISTÓRIAS DE

CANAVIEIRAS-BA

Fotos de Canavieiras-Ba
/esquerda p/direita

1-Vista aérea; 2-Praia; 3-Porto no rio Pardo, rua da frente; 4-Prefeitura; 5-Casarões antigos de frente para o rio Pardo; 6-Praia do Atalaia; 7-Beco central; 8- Ponte que liga a cidade à praia do Atalaia; 9-Repetida; 10-Casarões antigos; 11- Casa antiga.

O ENVIADO DE DEUS!?

Em Canavieiras, nos idos de 62, os bancários solteiros faziam as refeições na Pensão de D.Irene. As instalações eram simples, mas, além dessa, só havia outra, não muito diferente. Não existiam restaurantes,  nem quiosques de cachorro-quente.

A agência do Banco do Brasil tinha uma grande área de atuação.

Nossa clientela localiza-se de Prado até Camacan.

Nas épocas próprias, que antecedem o plantio das lavouras, afluíam a Canavieiras pessoas de muitos lugares – um povaréu sedento por grana!

Fazíamos a ficha cadastral de cada um, coletávamos informações, datilografávamos os contratos etc. Tudo era feito manualmente, com máquinas Royal, Remington e, posteriormente, com máquinas Olivetti. Os cálculos, com máquinas Odhner e depois com Facit, calculadoras mais modernas.

Como o desenrolar dos serviços era lento – e não poderia ser mais ágil – os agricultores permaneciam na cidade um tempo considerável.

Entre esses veio o Selênio, com propriedade lá pras bandas de Porto Seguro. Hospedou-se na pensão de D.Irene. Com o passar do tempo notou que, num aposento adjacente ao salão de refeições, costurava permanentemente, sem se arredar, uma moça de mais ou menos 35 anos. Rosto bonito, loura, mas sempre com um semblante carregado e sombrio.

Informaram-lhe ser filha da D.Irene. A paralisia, na fase infantil, deixou-a com as pernas raquíticas, sem movimentos dos joelhos para baixo. O seu viver limitava-se da cama para a cadeira de rodas, e desta para a máquina de costura. Uma vida triste, sem esperança de um amanhã melhor.

O Selênio enterneceu-se com o estado da moça e presenteava-a sempre com revistas: ora Capricho, ora Cruzeiro, ora Manchete etc. Adoçava-lhe a existência com barras de chocolate e outras guloseimas.

Com palavras doces, o enternecimento progrediu para um jogo de sedução. Nove meses depois nascia uma linda menina! A criança tomou-se a alegria da casa.

O Selênio, num final de tarde, quando enchíamos a cara de cerveja, já com os olhos mortiços de pinguço, algumas lágrimas correndo pelo rosto, comovido, declarou:

– Quando eu vejo a minha filhinha tão alegre, correndo pela pensão, brincando com um e com outro, percebo que fui o ENVIADO DE DEUS para trazer a felicidade àquela família!

MACUMBA FAJUTA

De outra feita chegou uma leva de bancários novos, que se instalou numa república próxima ao cais de Canavieiras. A maioria era carioca. Logo perguntaram se ali havia muita macumba, se os baianos eram mesmo chegados a candomblé. Foram avisados, lá no Rio, para ter o maior cuidado.

Numa sexta-feira, dias depois, juntamente com o J.Gomes e o Gilson, combinamos preparar para os medrosos uma macumba fajuta, pois não tínhamos qualquer experiência no ramo. A finalidade era assustar.

Adquirimos, no comércio local, pedaços de cetim vermelho e preto. Compramos também batatas, umas graúdas e outras pequenas, e uma caixa de palitos. Às 19 horas começamos os preparativos. Cortamos   os  panos em tiras, e fizemos bonecos com as batatas. Com as batatas graúdas fizemos os corpos e com as pequenas as respectivas cabeças, ligando com palitos as cabeças aos corpos. Colocamos palitos como braços e pernas. Aplicamos arroz e feijão nas batatas pequenas, como se fossem olhos e bocas. Enrolamos os bonecos com tiras pretas, e, como faltou pano, apenas um foi enrolado com tiras vermelhas.

Após tudo isso – como se já não fosse demais! – ainda tivemos a ideia macabra de fazer espadas com palitos, que cravamos no peito de cada boneco. Urinamos em uma garrafa de uísque, na qual colocamos baratas. Desenhamos uma caveira em um papel, no qual escrevemos em letras graúdas “MATALELÊ OBAIÔ DE MATALAMBÔ DE GONGÁ!” ou algo assim, palavras parecidas com o que estava escrito num terreiro de candomblé, próximo ao Bairro Rio Vermelho, em Salvador, no caminho entre o aeroporto e o centro.

Lá pela meia-noite, numa verdadeira operação de guerra, para sermos bem rápidos, cada um ficou encarregado de uma tarefa. Em frente à casa, um distribuiria as fitas de pano, cruzadas em forma de xadrez; outro acenderia as velas e espalharia farinha e moedas pelo chão; outro colocaria os bonecos na exata posição das camas dentro da república.

O fogaréu das velas fez um imenso clarão, visível bem longe.

Depois disso corremos para o cais e lá ficamos aguardando a confusão que se formaria. Ríamos ao imaginar a cara de espanto de cada um. Aguardamos mais de uma hora e nada aconteceu.

No dia seguinte, chegamos à pensão para o café, aguardando a repercussão.

Depois as vítimas da brincadeira foram chegando, uns cabisbaixos, todos apavorados, no maior silêncio. O susto foi demais, bem além do previsto. Tão perturbador,  que achamos aconselhável ficar calados. Posteriormente, soubemos que um carroceiro os acordou de madrugada, gritando que na frente da casa havia um despacho. Acordaram e não mais dormiram. Alguns nem saíram pela porta principal e, cautelosamente, saltaram o muro.

Gargalhamos muito com as diferentes versões, comentários e conjecturas sobre o incidente.

Apenas um demonstrou elogiável coragem, o José Camarota, um gordinho, representado pela batatona, que juntou aquelas porcarias e jogou no rio.

  1. CARLOS, O MÍOPE

Em certa manhã de domingo, lá pelos idos de 1963, estávamos na Praia de Atalaia, em Canavieiras – Ba. Eu, outros bancários e o Sr. Carlos, comerciante local, à sombra dos coqueiros, bebendo água de coco e conversando animadamente.

O céu sem nuvens, o calor do sol abrasador, e uma brisa refrescante vinha do mar.

Em dado momento, o Sr. Carlos chamou nossa atenção:

_Olhem, que mulheraço! Que mulher gostosa! Cada coxona!!

Quando voltamos os olhos, vimos que saía das ondas uma bela mulher. Alta, com um maiô amarelo que realçava suas formas. As pernas longas e bem torneadas, a cintura fina.

Respondemos, em uníssono, sem muita vibração:

– É uma moça bonita!

Face à falta de entusiasmo, o Sr. Carlos, crendo que a miopia lhe embaralhara a visão, colocou os óculos para melhor avaliação. Olhou e também se calou. Era a sua própria filha!

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Vinde a min vós que estais cansados
e oprimidos e eu vos aliviarei.
Mateus 11:28

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