HISTÓRIAS DE

MARABÁ-PA

Fotos de Marabá-Pa
/esquerda p/direita

1-Marabá pioneira, no encontro dos rios Tocantins à esquerda e Itacaiúnas à direita;

2- Prefeitura municipal; 3-Comboio de trem na ponte que liga Marabá ao distrito de São Félix; 4-Vista aérea do bairro Novo Horizonte de Marabá; 5- Shopping Pátio de Marabá; 6-Praia do Tucunaré;  7-Orla da Marabá pioneiras, às margens do rio Tocantins; 8- Foto Antiga; 9- Bairro alagado; 10- Gado nelore: 11- Castanheira.

O PATO ROUCO

Um dos personagens interessantes de Marabá, na década de 60,  chamava-se Alberto Moussalem. Pertencia a família tradicional da cidade, de origem libanesa. Cursou engenharia civil em Belém, na Universidade Federal do Pará.  Durante seu tempo de estudante naquela cidade, para reforçar o seu orçamento, num bairro central, montou uma pensão, onde, além dos  quartos, fornecia alimentação completa para os hóspedes. Para diminuir os custos, sempre ficava atento às oportunidades de adquirir gêneros alimentícios por baixo preço. Em certo dia, após a festa do Círio de Nazaré, que acontece no dia 12 de outubro de cada ano, estava no cais, próximo ao Mercado Ver-o-Peso, quando viu encostar um barco repleto de patos. O barqueiro vinha de longe, pensando faturar muito dinheiro com a venda das aves, que, segundo tradição arraigada, na festa do Círio, a maior parte das famílias de Belém prepara o “pato-no-tucupi”, manjar apreciadíssimo da culinária paraense.

Como o dia da festa havia passado, a procura por patos cessou, e por isso o barqueiro passou horas tentando desfazer-se dos patos. Ninguém queria.

Quando encontrou o Alberto, já estava desesperado com aquele montão de patos no seu barco, que, famintos e sedentos, grasnavam alto, numa revolta incontida.

O dono dos patos não titubeou um só momento  quando o Alberto propôs a compra de todos por um preço irrisório.

Os patos foram levados para o quintal da pensão, de onde, dia a dia, eram mortos segundo a necessidade. A carne bovina e o peixe desapareceram do cardápio: era pato no almoço,  pato no jantar, pato na ceia etc.

Até terminar com as  centenas de patos, os hóspedes sofreram e, até hoje, com certeza, estão enojados com “pato-no-tucupi”.

Como ele era rouco, os hóspedes, em represália,  apelidaram-no de “Alberto pato rouco”, que grudou de tal modo que nunca mais foi  chamado por outro nome.

Quando voltou para Marabá, por falta de demanda, nunca projetou construções, exceto sua casa na Rua 5 de Abril. Era um sobrado de dois pavimentos, tendo aterrado o primeiro piso com areia da Praia de Tucunaré, por ser mais barato do que buscar terra e cascalho de longe. O segundo andar sustentava-se em colunas colossais, semelhantes às do Partenon de Atenas. Um exagero! Tempos depois, num período de cheia do Rio Tocantins, estando as praias submersas, precisou de areia para construção. Então, não vacilou, e arrebentou o piso, retirando toda areia que necessitava. Ele próprio divertia-se com os seus exageros, pois ouvi o mesmo declarar, rindo: “Se cair uma bomba em Marabá, só o meu prédio fica intacto!”.

No prédio montou uma farmácia, que se tornou sua principal atividade, além da política, onde foi  eleito e reeleito  várias vezes vereador.

Lá pelo ano de 1967, apareceu um vendedor de máquina de sorvete e picolé bom de conversa, que, citando o Orlando e o Ari Mutran, que estavam equilibrados financeiramente graças à máquina de sorvete e picolé, conseguiu vender várias máquinas em Marabá. O Alberto comprou uma, colocando-a na parte da frente de sua farmácia.

Era moleque pra todo lado vendendo picolés de Ki-Suco. Diante de tantos fabricantes de picolés, houve um tempo em que faltou Ki-Suco no comércio local.

Nessa falta de Ki-Suco, disse-me o Alberto: “Resolvi  inventar e, valendo-me de um estoque encalhado de Biotônico Fontoura,  fiz várias formas de picolé.

Então perguntei: “Essa coisa prestou?”.

Respondeu: “Não coloquei para vender. Joguei tudo no lixo, pois ficou uma merda!”.

Era uma figura.

 

ALCIDES,  O BOM DE PAPO

Em outubro de 67, o Fernandes, gerente da agência de Marabá, esteve em Belém, onde participou de uma reunião com os gerentes da Amazônia, presidida por Nestor Jost, então presidente do Banco do Brasil.

Voltou de lá vibrando, contando sua atuação nesse encontro. Quando o presidente do banco deu oportunidade, expôs os problemas  da Amazônia e a possível contribuição do banco na solução.

Percebeu que o presidente ficou pensativo, observando-o.

No final do ano, época de fechar o balanço, feito manualmente, havia uma trabalheira sem fim, o Alcides, meio sem graça, aproximou-se do Fernandes:

– Chefe, eu estou até meio receoso, pois sei o quanto serei necessário nesta fase tão árdua, mas, mesmo assim, vou fazer-lhe um pedido. Em minha família, há uma tradição de décadas: os filhos e netos se reúnem no Rio e passam o natal e o ano novo com nossos pais, já velhinhos, com quase 90 anos. É um tempo de muita alegria para eles!  Estou pedindo uns 10 dias de folga e isso sem muita esperança, pois, se você não me conceder, eu entenderei!

– Alcides, eu não impedirei a continuidade dessa tradição tão bonita! Eu te libero!

O Alcides ficou agradecido, prometeu suar a camisa na volta e seguiu viagem.

Lá pelo dia 26, chegaram alguns clientes de Tucuruí e disseram:

– O Alcides passou o natal com a gente. Que homem simpático, generoso e amigo! Pagou cerveja pra todo mundo! Está noivando com a filha de um velho, que está satisfeitíssimo com ele, principalmente, depois da promessa de receber de presente uma máquina de picolé! (Ele já era casado em Brasília e amancebado com outra, em Marabá)

Quando soube, o Fernandes prometeu:

– No dia em que aparecer, mandarei embora aquele sacana, filho de uma égua! Cabra mentiroso!

O Alcides chegou do Rio no dia 3 de janeiro e, na parte térrea da agência, com  estardalhaço, foi de mesa em mesa, distribuindo chaveirinhos para os colegas:

– Colega, eu me lembrei de você, aceite esta pequena lembrança do Canecão, cervejaria  do momento, inaugurada no Rio!

O Fernandes, segundo informações do Colivaldo, seu assistente, ao ouvir o seu vozerio, fez uma cara de cachorro bravo.

O Alcides subiu a escada e foi falando:

– Fernandes, eu estive em Brasília na volta e falei com o Arturo Edésio, meu cunhado, que trabalha junto à presidência do banco. Cara, você está com um bolão, com muito prestígio junto ao Presidente Jost. Ele só se refere a você como o meu “gerente da Amazônia”!

O Colivaldo, que na mesa ao lado a tudo assistia, viu a carranca do Fernandes, num momento, encher-se de sorrisos.

Com certeza, eu nunca vi um espertalhão mais talentoso, dava nó até em gota d’água!

GARRANCHOS

Clinicava em Marabá, na década de 60, o Dr. Amadeu. A sua letra, tal como acontece com a de inúmeros médicos, era ruim. Dia a dia, a grafia foi piorando, até  que as letras se transformaram em  indecifráveis garranchos.

O paciente, quando tentava ler, nada entendia, mas era logo avisado:

– Havendo qualquer dúvida, vá com o Bebé da farmácia, que ele conhece minha letra!

Certo dia, um paciente voltou, falando que ninguém entendia nada.

– Eu avisei! Vá com o Bebé, que ele entende!

– Dr. Amadeu, estou vindo da farmácia do Bebé, e ele também não decifrou!

O médico pegou a receita, olhou, examinou muito e disse:

– Meu filho, o que é mesmo que você está sentindo?

O CAÇADOR

Em 1964, quando me impediram de ir para a Agência do BB-Metrop. Mauá – Rio de Janeiro, para onde estava transferido, e me removeram para Marabá-Pa, fiquei pasmado, meio sem ação, por ser um local longínquo, só acessível por avião.  Deveria ficar lá por um tempo não definido.

Tratava-se de uma brutalidade desmedida, pois não tive qualquer participação política nos acontecimentos. Um jornalzinho, “A VOZ DO BANCÁRIO”, do qual era um dos diretores, que teve apenas uma edição, e bem limitada, foi a causa de tudo.

Depois de minha defesa, desnecessária até, atribuíram-me, a julgar pela penalidade,  uma liderança que não detinha, de um movimento que sequer existiu.

Houve, com certeza, muita injustiça naquele período!

Diante do golpe sofrido e da remoção para o Pará, pensei: “Para diminuir o prejuízo, aproveitando a oportunidade, caçando onças, enriquecerei minha biografia”.

Empacotei as armas: um rifle Winchester 22 e uma espingarda Bereta 16, com as quais caçava patos nos terrenos alagadiços, a noroeste de Canavieiras.

A viagem aérea, de Canavieiras a Belém, durou três dias, com paradas diversas.

Em Belém, aguardando voo, resolvi passear. Indicaram-me como sendo passeio agradável uma  visita  ao Bosque Rodrigues Alves, situado na Avenida Almirante Barroso.

Era uma mata fechada, de aproximadamente 500 m de comprimento por 400    de largura. Era um pedaço da mata amazônica implantado no meio da metrópole.

Segui até o meio da mata. Por ser um dia útil da semana, eu era o único visitante.

Lá no meio da mata bruta, recostei-me num alambrado bem próximo à jaula de uma oncinha  e, naquele silêncio, fiquei absorto, remoendo os últimos acontecimentos.

De repente, ouvi um esturro assustador, que me gelou a alma. Arrepiado, girei o corpo e percebi que provinha do filhote de onça.

Ali se encerrou a minha carreira de caçador de onças, que ainda nem se iniciara.

Pensei: “Se enjaulada, uma simples oncinha quase me fez sujar as calças, faria um tremendo um papelão ao defrontar-me com a mãezinha dela, solta no meio da floresta!”.

 

 

O ORADOR SAGAZ – QUE PRESENÇA DE ESPÍRITO!

Marabá também foi classificada como zona de segurança nacional. Foi nomeado prefeito o Cap. Elmano, que fora de Santarém-Pa. Era homem de valor, administrador bem sucedido, mas se indispusera com as forças políticas de Santarém, de modo que forçaram sua saída.

Em Marabá, imprimiu um novo modelo administrativo. Com os melhoramentos implantados caiu nas boas graças do povão. O seu conceito era ótimo.

Digladiavam-se em Marabá duas forças políticas: uma chefiada por Pedro Marinho, aliado do prefeito; outra, comandada por Nagib Mutran. Os dois lados lutavam para fazer, nas próximas eleições, maioria na câmara de vereadores.

Naquele tempo não chegavam a Marabá os sinais de TV, de modo que os comícios atraiam grande número de pessoas. Era um acontecimento. Assistiam ao comício tanto o pessoal da oposição como os da situação, ou seja, tanto os partidários da ARENA I, ligados ao prefeito nomeado, como os da ARENA II.

A oposição, ARENA II, realizou um comício na Praça Duque de Caxias, ao lado do Palácio Augusto Dias, sede da prefeitura.

Vários oradores falaram. Tudo estava transcorrendo bem.

Foi passada a palavra a João Maria Barros, bom orador, que, inflamado, mandou brasa no prefeito nomeado.

A maioria dos presentes, pertencentes à situação, começou a alvoroçar-se.

O orador continuou:

– Povo de Marabá, lamentável o que ocorre na prefeitura, que sempre foi dirigida por homens sérios, respeitáveis chefes de família. O prefeito tem, por baixo do pano, desviado recursos da prefeitura para construir uma casa para a amante, serventuária pública. É uma vergonha! Esse homem, completamente alheio aos nobres valores morais do povo marabaense, está transformando a prefeitura num bordel!

Aí o povo não aguentou, a vaia foi ensurdecedora.

O orador permaneceu em silêncio, como se as vaias não fossem a ele dirigidas. Depois de um tempo, com o povão já cansado de vaiar, ele retomou, tirando o corpo de banda:

– Isso mesmo, meu povo! Pode vaiar que ele merece!

 

A verdadeira inteligência trabalha em silêncio. É no silêncio em que a criatividade e a solução de problemas se encontram. (Eckhart Tolle)


OPINIÃO REEXAMINADA 

Lá em Marabá, em uma  festa tradicional de fim de ano, organizada pela Maçonaria, como a energia elétrica faltou subitamente, lá pela 1: 00 hora da madrugada, muitos dos presentes, na escuridão, armaram a maior desordem. Começaram a jogar copos no meio do salão, de modo que, quando a luz voltou, havia dezenas de copos e garrafas quebradas na pista de dança, o que desaconselhava o reinício da festa, diante da possibilidade de acidentes.

Tal ocorrência desanimou os organizadores de festas da cidade.

Se uma festa da Maçonaria os desordeiros não respeitaram, quanto mais uma festa realizada por uma entidade sem tanta força. Assim tudo indicava que ninguém se arriscaria a promover festas.

No final da década de 60, eu presidia a Associação de Bancários de Marabá, que hoje não mais existe. A diretoria da ABM resolveu alugar o Clube de Mães e ali promover o carnaval, apesar dos riscos.

Sabíamos quais eram os arruaceiros. Acertamos, portanto, que, caso a luz apagasse, os diretores apontariam lanternas sobre as mesas dos arruaceiros, eliminando assim qualquer confusão. Assim foi feito e, no decorrer da festa, a luz apagou e nada aconteceu.

Após o início da festa, fui chamado à portaria. O Zizinho, acompanhado do Pranchão, queriam entrar. Informados de que os ingressos já estavam esgotados, não desanimaram. Queriam entrar de qualquer modo.

Tanto um como outro eram pessoas tratáveis quando sóbrios. Cheios de cachaça, eles eram caçadores de encrenca. O Zizinho era pior, pois, confiado na força do Pranchão, seu protetor, metia-se em constantes brigas.

Zizinho era poeta e sempre publicava suas poesias no Jornal O Marabá. Apenas por publicar poesias no referido jornal, enxergava-se como jornalista.

Por receio de confusão, reiteramos que o salão não comportava mais pessoas e, além disso, o mesmo já apresentava indícios de embriaguez.

Retiraram-se, demonstrando insatisfação. Pouco depois regressaram com o diretor do Jornal O Marabá, que reclamou:

– Isso não está certo! Vocês estão impedindo a atuação da imprensa, barrando um jornalista!

– Não, Sarmento, ele está bêbado!

– Ele está sóbrio, eu garanto!

– Você se responsabiliza por qualquer dano que ocorrer nas instalações do clube?

– Eu me responsabilizo!

Então fomos à secretaria do clube. Todos me seguiram: Zizinho, Pranchão, o diretor do jornal e os demais membros da diretoria.

Coloquei um papel na máquina, e datilografei: “DECLARAÇÃO – Eu,  Antônio  Sarmento, diretor do Jornal  do  O Marabá,  declaro para os devidos fins que o Sr. Zizinho, jornalista de meu jornal, por minha intercessão, terá acesso às dependências do Clube de Mães, para participar da festa de carnaval. Esclareço que ficarei responsável por qualquer dano material que vier ocorrer na referida festa, por ação do referido senhor. Espaço para assinatura.”

Entreguei a referida declaração para citado senhor assinar.

Ele leu, releu, ficou pensativo, coçou a nuca e então falou:

– Eu não vou assinar!

Surpreso e abismado, o Zizinho falou:

– Por que, Sarmento? Por quê?

– Zizinho, repare nos seus olhos, você está bêbado, cara!

 

Nota: Fatos verdadeiros, nomes fictícios.

 

VALENTE LONGE DO PERIGO!

No início da década de 70, nos anos de chumbo da ditadura, em pleno governo Médici, havia insatisfação no ar. O povo sorrateiramente ensaiava demonstrações de cansaço, e ansiava pela volta da democracia. O aparelho de segurança do governo estava bem atuante. Mesmo assim, ouviam-se comentários de insatisfeitos com a situação. Aquele que, às claras, manifestasse suas opiniões despertava admiração por sua coragem.

Os funcionários do Banco do Brasil de Marabá, atendendo um convite da AABB de Imperatriz (MA), foram até àquela cidade participar de uma disputa de futebol. Após o término do torneio, houve um farto churrasco, regado à cerveja gelada.

Naquele ambiente de alegria, já inspirados pelo álcool, a conversa foi variada. Um funcionário local pôs pra fora o seu lado “Chê Guevara”, e mandou brasa no governo, falando do absurdo de estarmos sendo conduzidos por militares despreparados e retrógrados.

O Colivaldo, colega de Marabá, aproximou-se mais e deu mais corda no revolucionário:

– Concordo plenamente contigo, colega, a população precisa tomar uma providência!

O revolucionário, face ao interesse do interlocutor, escancarou todo seu pensamento esquerdista.

Indagado se havia em Imperatriz outras pessoas inteligentes, que tivessem o mesmo pensamento, prometeu continuar a conversa, assim que voltasse do sanitário.

Tão logo saiu, o Colivaldo sussurrou algo no ouvido de outro bancário, que seguiu imediatamente atrás do “Chê Guevara tupiniquim”.

No sanitário, falou:

– Colega, eu ouvi parte da conversa de vocês. Aconselho que se cale, não diga mais nada, pois temos motivos de sobra para desconfiar que aquele gordinho é um agente secreto do SNI. Lá em Marabá, ninguém abre o bico pra ele!

O revolucionário não apareceu mais. Vazou.

Os outros bebedores de cerveja quase morreram de rir, quando souberam do trote aplicado.

“Quem não é um liberal aos dezesseis anos é um insensível; quem não é um conservador aos sessenta é burro.” [ Benjamin Disraeli ]

 

PEDRO VALE

O personagem acima apareceu em Marabá, nos anos finais da década de 60.

Publicava suas poesias no jornal O Marabá.

Bebia todas que podia. Vivia perambulando pela cidade, sem camisa, com os pés descalços, encharcado de cachaça. Raramente o víamos sóbrio e, quando isso ocorria, mantinha uma boa conversa, evidenciando ter uma cultura acima da média local.

Em certa ocasião, lá na zona dos bordeis, o Ary prestava assistência à sua amásia, afligida por uma forte dor de dente. Diante do quadro de sofrimento saiu às pressas para comprar cera Dr. Lustosa para aplicar no buraco do dente. No que o mesmo saiu, ela foi ao banheiro.

O Pedro Vale, que por ali passava  naquele instante, vendo a porta aberta, entrou e refestelou-se na rede vazia.

Quando voltou o Ary regressou, no ambiente escuro, viu apenas  a amásia, gemendo. Por uns momentos acariciou sua cabecinha. O gemido cessou de repente, mas, quando estava para aplicar-lhe o medicamento, ouviu um grito:

– Ary, seu cabrinha!!

Era o Pedro Vale, bêbado como sempre, mas irado com as carícias de um macho.

Outra tarde, quando, sem camisa e bêbado, injuriava os políticos da cidade, foi abordado pelo velho Antônio Chaves, crente da Assembleia de Deus, que lhe dirigiu palavras amigas, apontando os caminhos do evangelho, visando tirá-lo daquela vida:

– Pedro Vale, o Sr. é um homem inteligente, não devia estar se consumindo com tanta bebida! Faça uma visita à nossa congregação que o ajudaremos a vencer o vício!

Com a mão na cintura e voz de bêbado, olhando-o enviesado, falou:

– O senhor sabe quantas garrafas de pinga são vendidas em Marabá por mês?

– Não tenho a menor ideia!

– São vendidas 5.000 garrafas! Dá meia garrafa por pessoa! Dessas, quantas o senhor bebe?

– Eu não bebo!

– Então o senhor é o culpado! Pois não consome a sua cota, e eu tenho de cumprir uma obrigação que é sua!

GADO GIR

O Dr. Sílvio, veterinário, e outros pecuaristas  realizaram a primeira exposição pecuária de Marabá. Trouxe vários animais de boa qualidade do Triângulo Mineiro para comerciar.

O Viramundo, garrote Gir que lhe pertencia, era de excelente linhagem, apresentando as características da raça: testa proeminente, chifres tendentes para trás, orelhas agavionadas, pelagem esbranquiçada com manchas vermelhas, barbela bem formada, trazeiro carnudo etc. Era um excelente  animal! Atraiu a atenção do fazendeiro João Grande, que o arrematou e levou para sua propriedade, no alto Rio Vermelho.

Lá chegando, a vacada deu preferência pelo bonitão, o que enraiveceu um touro tucurão, que antes dominava a vacada.

Certamente ele, boi do sertão,  pensou: (E touro pensa? Para contar uma história vale tudo!)  “Tô quieto no meu canto com as minhas vaquinhas, e vem esse boizinho axibungado das capitá dá uma de gostoso pra cima delas! Vou descê o cacete nele e resorvê o pobrema!”.

Numa tarde, o touro tucurão cercou o Viramundo numa encosta e, enfiando-lhe os chifres na barriga, lançou-o morro abaixo. Lá ficou  estatelado e deu o último mugido.

Foi um baita prejuízo!

Além do animal supracitado, o Dr. Sílvio também possuía uma vaca Gir, também de fina linhagem, com as características acima mencionadas. Vendeu-a ao Sr. Antônio, outro fazendeiro.

Diziam a respeito:

– É um animal tão bem formado com as características da raça Gir que, de longe, pelo porte, parece um reprodutor!

Meses depois, quando perguntaram ao Sr. Antônio:

– A vaca já pariu?

– Até hoje não! Tanto falaram que parecia com um touro que, às vezes, percebo-a querendo namorar as demais vacas! Azararam-me, com certeza! Secaram com olho gordo uma grande aquisição!

Deu azar, a vaca era manina!

 

ORESTES

Na mesma ocasião, procedente de Brasília, chegou um funcionário para cumprir um tempo como adido; chamava-se Orestes. Também se dizia batista. A sua conduta, porém, diferia dos demais ali existentes; pois, os seus atos e suas palavras eram irrepreensíveis.

Logo de início, vendo a situação do D’Arco, que se dizia batista, entendeu que sua missão naquele local, além do trabalho a prestar, era reconduzir o irmão em queda aos bons caminhos do Senhor.

Procurou, por todos os meios, auxiliar o irmão, quer por exortação ou demonstração de cuidado. Continuou assim por mais de mês.

Enquanto assim agia, o D’Arco, por deboche, colocava, em sua gaveta, retratos de mulheres nuas. Outras vezes, revistas com fotos sensuais.

Os demais funcionários também participavam da gozação, inclusive outros que se diziam batistas.

Com aquilo tudo, a paciência do Orestes – sério, porém humano – foi  se esgotando!

Numa manhã, no começo das lides da agência, alguém falou:

– Orestes, vá buscar seu irmão, que está bêbado, sentado  na calçada!

Como o limite de sua paciência já havia sido ultrapassado há muito tempo, não se conteve:

– Ele que se arrebente! Que se lasque!

A zombaria era muita e, numa tarde, no embalo das risadas debochadas, declarou:

– Desse jeito, se não mudarem, acabarão todos no inferno!

Alguém falou:

– Até o Danilo?

– Não, esse não! Esse me respeita!

Por mais de 40 anos, essa afirmação ficou apagada de minha memória.

Meses atrás, porém, quando pregava em minha igreja, aludindo àqueles que, por seu exemplo, mais do que por apenas palavras, deixam um rastro de integridade, eu me lembrei da supracitada afirmação do Orestes.

Naquele instante, o Senhor me revelou que aquele homem, ao fazer tal assertiva, deixava claro que orava a meu favor.

A emoção me dominou de tal modo que, com a voz embargada, pedi que me substituíssem no púlpito. Não consegui terminar a pregação e assim constatei, na minha própria vida, a veracidade da Palavra: “Muito pode, por sua eficácia, a súplica de um justo – Tg 5:16”.

Não sei se está vivo, mas, se já foi recolhido para o Senhor, estará com certeza, juntamente com outros amados no portal da eternidade, fazendo parte da minha  comissão de recepção.

SABEDORIA  MOTIVADA POR NECESSIDADE

Meu sogro possuía uma fazenda, a São Pedro, que ficava  na beira  do Rio Tocantins, na margem oposta  à cidade de Marabá,  distante uns  quatro km do povoado de São Félix. Ali trabalhavam vários vaqueiros, dos quais destacaremos dois, o Zé Barroso e o Domingos. Aquele vivia com a mulher e três filhos num casebre distante da sede cerca de dois km, nas proximidades do Igarapé Geladinho, e o outro morava com os vaqueiros solteiros num galpão, nas adjacências da sede.

Não havia luz elétrica, de modo que, quando caía a noite, surgia um céu estrelado surpreendente e pirilampos por todos os lados, emitindo suas luzes, que encantavam a meninada. No mais, era só um silêncio – não se ouvia uma viva voz.

Para os  vaqueiros solteiros a solidão era maior, pois lhes faltavam companheiras para fazerem planos, trocarem ideias, conversarem sobre amenidades ou fazerem outras coisas. Nos finais de semana, visando fazer outras coisas, os solteiros seguiam para o povoado próximo ou para Marabá, onde, nos muitos bordéis, enchiam a cara de cana e caíam nos braços das putas, torrando assim o  suado ganho.

Essa  vida vazia, monótona, de prazeres limitados, enfastiava qualquer vivente, contudo tinham de conformar-se e ali permanecer. Só com estudo podia-se  conseguir um emprego, e ainda com dificuldade.

O Domingos, diante disso tudo, invejava a sorte dos casados, principalmente do Zé Barroso, cuja mulher, pequena e meio sem graça, naquele quadro de escassez, tornava-se bela. Quando a viu no Igarapé Geladinho, lavando roupa, achou-a  linda, no seu devaneio meio torto, incendiado por seus abundantes hormônios de homem jovem. O vestido de algodão encharcado d’água colava-se ao corpo, delineando-o, o que o Domingos de longe admirava.

Seus olhos se encontraram. Ela sentiu-se desejada. Envaidecida, com a bacia de roupas na cabeça, foi para casa cuidar dos filhos.

No dia seguinte, no mesmo horário, lá estava o Domingos, apreciando-a lascivamente, desnudando-a  com os olhos. Aproximou-se e entabularam uma longa conversa.

Certo dia, quando o Zé Barroso regressou da cidade, onde fora abastecer-se de  mantimentos para o mês, não a encontrou. As crianças estavam sós; e o menino mais velho falou: “Pai, a mãe foi à cidade  com o Dominguinho!”.

Entendendo que tinha sido abandonado, o Zé Barroso, completamente alucinado,  procurou o patrão e, cheio de  ódio, foi dizendo: “ Quero faltar alguns dias, pois vou atrás  dos patifes, e furar-lhes o bucho  com minha peixeira!”.

Numa repetição tresloucada, dizia a todo instante: ”Vou matar aquela égua!”.

Após ingerir uns comprimidos de Lexotan e uns copos de suco de maracujá, ouviu o conselho do patrão  e foi para sua casa, onde os filhos ansiosamente o aguardavam.

Três meses depois, os demais vaqueiros viram a fujona varrendo o quintal em volta do casebre, enquanto a criançada corria alegremente.

O patrão, quando se encontrou com o vaqueiro, perguntou: “Zé, a mulher voltou?”.

Todo encabulado, justificou-se: ”Patrão, a minha situação estava difícil. Quando eu via o Juninho, de apenas  oito anos, preparar a comida para os irmãozinhos e assumir os afazeres da casa, cortava-me o coração vendo o menino, tão jovem, e já tão sacrificado.  Eu precisava  muito de uma mulher. Tentei encontrar, não consegui. Ninguém queria  vir para esse fim de mundo, sem luz,  água encanada ou qualquer conforto; e, ainda, o que era pior,  para tomar conta de três  meninos. Dos meus contatos, somente uma puta velha, derrubada, em final de carreira, estava disposta a enfrentar a luta. Fiquei de pensar e, nesse tempo, a mulher voltou arrependida, chorando muito, com saudade das crianças, e clamou por meu perdão. Pensei muito e acabei aceitando-a de volta. Puta por puta, pensei,  é melhor ficar com a mãe dos meninos, pois esta,  muito  arrependida de sua louca aventura,  não mais vai aprontar e nem vai maltratá-los!”.

NOTA: Fatos contados  por meu sogro, mas as circunstâncias foram por mim coletadas. Fatos verídicos, nomes fictícios.

​© 2018 

daniloorrico.com

 

Vinde a min vós que estais cansados
e oprimidos e eu vos aliviarei.
Mateus 11:28

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